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segunda-feira, 12 de maio de 2008

Semana Grega

Ontem, apesar do feriado aqui, iniciou-se na École Normale Supérieure a Semana Grega: o mundo de Édipo. Fomos ver a encenação da peça Édipo Rei, de Sófocles, pelos alunos da École; em seguida, a intervenção do tradutor da peça para o francês: J. Bollack.

A encenação da peça foi ao ar livre. Houve alguns problemas, como o sol insistente, pontos cômicos realmente deslocados e uma Jocasta realmente fraquinha. Mas não dá para ser muito exigente se a intenção é de amadores. Um dos pontos altos da peça foi o coro, cantado e muito bem pensado, que contava com a presença de um maestro.

domingo, 11 de maio de 2008

Em um filme de David Linch

Fomos hoje para uma vilazinha ao norte de Paris: Auvers sur-Oise, lugar onde Van Gogh morou. Tudo pareceu-me meio insólito e a sensação era de, constantemente, estar participando de um filme de David Linch.

Assim que descemos do trem que nos levou da Gare du Nord para Valmondois, estação onde deveríamos fazer uma baldeação, já parecia tudo muito esquisito: o tipo de estação (parecidas com aquelas que temos no interior de São Paulo, como resquícios da vida do final do século XIX e início do XX), tudo muito vazio, sem pessoas, uma região campestre. Ao descer, então, na estação de Auver sur-Oise (foto acima), parecia-nos tudo muito esquisito, duas ou três pessoas que desceram do trem além de nós, sem indicações; na cidade, muitas coisas fechadas. A despeito da atração turística, quase não havia pessoas nas ruas.

Nos dirigimos ao castelo. No meio do caminho, em frente à casa de Van Gogh, uma mesa com uma jarra de vinho, duas taças pela metade e ninguém sentado. No castelo, parecíamos baratas-tontas: não encontrávamos a entrada, não havia informações. Até que conseguimos finalmente entender a mecânica da coisa: tínhamos de pegar um fone de ouvido no qual ouviríamos uma narração e músicas que acompanhavam as apresentações de vídeo de dentro do castelo; a gravação também indicava onde deveríamos ir, por onde passar. Nada muito empolgante, nem o castelo era muito bonito.

Na volta, o mais inusitado. Queríamos um sorvete. Fomos até um bar que vendia sorvetes artesanais; como ninguém nos atendia, fomos a um outro bar. Como lá também ninguém nos atendia, voltamos ao primeiro. Um senhor veio e nos disse: "Désolé, mas não há ninguém para preparar o sorvete para vocês neste momento. Talvez daqui a meia-hora". Nos olhamos uns para os outros e tudo o que pudemos pensar naquele momento foi em voltar para casa. Na estação, literalmente desolados, não havia indicação alguma de horário de trem. E novamente a cena de filme de David Linch: do outro lado da estação há muita gente; fico de costas e, ao me virar novamente, todos sumiram! Fui até os trilhos e olhava o horizonte: nem sinal de trem. Depois de uma hora esperando na estação, surge no visor a indicação de quem o trem passaria dali a um hora.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

8 de maio de 1945


Hoje é feriado por aqui: dia da desocupação da França pelos alemães (ou, como dissemos para Esther, a alemã do andar: o dia em que os alemães perderam a guerra). Enfim, dia bonito, feriado prolongado (segunda-feira também é feriado), eu e Cristiane fomos bater perna pelo Marais.


Marais é um bairro conhecido por três características: é o bairro dos judeus, dos artistas e dos gays. E lá fomos nós em nossa incursão para a Place des Vosges. Ficamos costurando as ruas, andando, entrando nas lojas, descobrindo o bairro. Entramos em lojas de sapatos, em sebos, em lojas de brinquedos, de vinhos... até que chegamos ao lugar desejado: a Place des Vosges estava lotada de gente sentada no gramado tomando sol! Demos uma volta no square, passamos pela Maison de Victor Hugo e voltamos. Antes, claro, tomamos um sorvete na simpática Île de Saint-Louis e, por pura gula, comemos um lanche no Subway (para lembrar um pouco a vida de Barão Geraldo).

A primavera por aqui é fantástica: todo mundo sai de casa em dias de sol como o de hoje e vai aos parques tomar sol e ficar esticado na grama. Há de tudo: famílias inteiras que vão fazer piquiniques, casais que namoram desinibidamente no gramado, crianças que rolam na grama, velhinhos que passeiam. É uma imagem muito simpática.

A foto acima é da Notre-Dame vista dos fundos, na travessia da Île de la Cité para a Île de Saint-Louis, duas ilhas no meio do Sena.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Chefe de cozinha

Não, ninguém aqui virou chef. Apenas me refiro à nossa generala da cozinha coletiva do 5º andar: Letícia. Nashira, você foi embora, mas deixou uma boa sucessora. Domingo foi feita uma reunião na cozinha, especialmente para os novatos, explicando as regras de boa convivência do ambiente coletivo; ela também chamou os novatos para fazer a limpeza mensal. E, hoje, estava no quadrinho branco: "Seria bom para todos que ninguém deixe comida no ralo da pia".

terça-feira, 6 de maio de 2008

Boa nova

Uma ótima notícia que chega do Brasil: Alexandre marcou sua defesa de doutorado para dia 4 de junho, às 13h, na sala de defesa de teses do IEL. Agora, só falta comprar as passagens São Paulo/Paris/São Paulo. Voilà Alexandre em terras francesas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Dois meses

Cheguei aqui há dois meses. Nesse tempo, qual o balanço de tudo? Vejamos:

- Lingüístico: estou mais acostumada a ouvir os parisienses, que falam deveras assoviado. Por outro lado, o meu ué, bonjour e merci estão irretocáveis. Ainda estou tentando me acostumar ao chépas (je ne sais pas).

- Geográfico: já passei por quase todos os arrondissements de Paris, mas não conheço nada da periferia. Sei andar de metrô e ônibus tranqüilamente, desde que não seja preciso passar pela estação Châtelet. Me localizo facilmente com a ajuda do Sena.

- Cultural: ainda não descobri muito bem os sebos, apenas os de culinária. Fui a poucos museus, mas Paris não se restringe a eles. Também fui ao balé e ao teatro; comprei poucos livros, sendo dois de receitas.

- Acadêmico: o trabalho começa a engrenar. Já estou acostumada aos procedimentos de entrada da BNF. Estou cada vez demorando menos entre a chegada e o início do estudo (varia de 15 a 20 minutos).

Brincadeiras à parte, fora as várias etapas de adaptação, a permanência em um país estrangeiro pode ser enriquecedora em vários aspectos. Paris é uma cidade paradoxal, como todas as grandes cidades: tem seu lado glamouroso que todo mundo conhece pelo menos de ter ouvido falar, mas também tem seus momentos difíceis. Possui uma oferta enlouquecedora de atrações culturais, turísticas e acadêmicas, mas por outro lado tem a dificuldade da demanda exagerada: para tudo é preciso se programar com muito tempo de antecedência.

Se por um lado não tenho a desvantagem de ser turista e estar por aqui apenas de passagem, afinal 1 ano é bastante tempo, por outro não tenho as vantagens de um residente definitivo da cidade, nem de um nativo. No entanto, há facilidades surpreendentes mesmo para estrangeiros: ajuda financeira para pagamento de aluguel, transporte barato com a aquisição do passe Navigo, entrada gratuita em vários museus todo primeiro domingo do mês, entrada gratuita em tantos outros museus (os municipais). Enfim, um sem-número de situações pelas quais é possível passar e aproveitar muito. Fora alguns momentos realmente complicados pela estatura de estrangeira-residente, as coisas estão fluindo bem, eu acho.

Academicamente, principal motivo pelo qual me encontro aqui, as coisas estão indo um pouco devagar ainda para o meu gosto. Mas em breve pretendo conseguir um ritmo digno; a idéia de poder aproveitar as bibliotecas de Paris se expande toda vez que olho o catálogo da BNF. Por outro lado, agora é época de exames e logo vêm as férias: por isso, ainda não consegui participar de nenhum encontro do grupo da Paris III. E provavelmente só depois de setembro.

O próximo balanço farei somente no final da minha estada por aqui, assim poderei comparar bem como eu cheguei e como saí. Espero que os pontos positivos sejam muito maiores que as desvantagens. Torcemos.

domingo, 4 de maio de 2008

A Megera Domada


O espetáculo de hoje, A Megera Domada, peça de Shakespeare, foi na Comédie Française. A mise-en-scène usa a tradução para o francês de François-Victor Hugo, com uma apropriação bastante moderna de seu texto e que funciona perfeitamente. Não há anacronismos na encenação, nem excessos. Com um ritmo rápido, interpretações irretocáveis, as três horas de apresentação passam deveras rápido (há um entreato de 15 minutos).


Tudo impressiona na peça: o cenário que, embora simples, é genial; os figurinos que são representados por espelhos (é difícil explicar como eles fizeram aquilo: usaram as costas do espelho para colar desenhos que figuravam um figurino de época, embora as roupas fossem normais); a música e o acompanhamento de percussão em todos os momentos da peça e que valoriza os gestos dos atores, bem como intensiva a comicidade de algumas cenas. Para minha primeira peça em terras francesas, acho que comecei bem. Mas, além da Comédie Française, é difícil achar um espetáculo teatral por preço tão em conta; o Théâtre du Soleil, por exemplo, custava 50 euros (as duas partes do espetáculo, que encerrou no dia 20 do mês passado e que eu, infelizmente, perdi).

sábado, 3 de maio de 2008

Mats Ek

Mats Ek é o coreógrafo sueco do espetáculo de hoje que vimos, eu e Pablo, no Palais Garnier. Coincidentemente, os lugares eram lado a lado. Explico o "coincidentemente": uma amiga minha, daqui da Maison, me ofereceu um ingresso para comprar, pois ela estaria em Londres na data. No mesmo dia, Pablo comentou que ele tinha comprado um ingresso para um espetáculo no Palais Garnier para 3 de maio. Resolvi e comprei da Cris; combinei com Pablo e nos encontramos na frente da Opéra. Eis que fomos ver os lugares: lado a lado. Se eu não tivesse comprado o ingresso da Cris, ela conheceria Pablo hoje.

Foram duas partes do espetáculo: a primeira era baseada na peça de Garcia Lorca, A Casa de Bernarda (Alba); a segunda chamava-se Une sorte de... A foto ao lado é da primeira parte da apresentação, um balé dramatizado. Mas a melhor parte foram as do primeiro bailarino (que fazia o papel de Bernarda), Manuel Legris, e da Servente da família, Marie-Agnès Gillot. O melhor da apresentação veio depois: a segunda parte do espetáculo era mais ágil, com uma coreografia mais bonita, um cenário composto de móbiles visualmente simples e práticos, mas bastante eficientes.

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Na volta do Palais Garnier peguei um ônibus para voltar pra casa e passei pelo centro de cidade. Paris está linda, com uma temperatura agradável (logo começa a ficar quente demais) e repleta de turistas.

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Chegaram os bilhetes de trem que reservei para Amsterdã, para mim e Alexandre. Vamos dia 25 de julho e voltamos dia 28. Saiu, para os dois, 100 euros. Achei o preço ótimo e a época é boa: verão, sol, flores abertas.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Pequena saga

Ontem foi uma das noites mais desastrosas até então aqui em Paris. Um grupo resolveu ir a um bar, no 20º arrondissement (diga-se de passagem: bem longe de onde moramos), onde toca música irlandesa. Fui convidada e resolvi ir junto. Além de ter de passar pela pior estação de metrô daqui, a já conhecida Châtelet, ainda andamos uns 15 minutos até chegar ao bar.

Acontece que três dos integrantes do grupo resolveram parar para comprar cerveja e foram bebendo. Ao chegar no bar, um senhor que estava na porta nos impediu de entrar: "O bar está cheio. Além disso, vocês estão bebendo alguma coisa que eu não sei o que é. Não sei o que vocês beberam antes". Estupefatos, tentamos ainda uma vez conversar com o intransigente guardinha.

Sem sucesso nessa empreitada, nos dirigimos a um outro bar não longe dali (com uma pausa no meio do caminho para os famintos se alimentarem). Eis que lá chegando, o bar estava fechado. Resultado? Apenas um passeio pelo último arrondissement de Paris.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Primavera de 68

40 anos do maio de 68. Muitas coisas juntas: a leitura de um livro que se reporta diretamente a este movimento, estar no exato local onde tudo começou e em uma época apropriada. Tudo isso junto provoca algumas sensações.

E hoje, 1º de maio, foi dia de manifestações aqui em Paris: de manhã foi o movimento da extrema direita; agora à tarde foi a manifestação da esquerda. Um pequeno grupo daqui da Maison foi para poder acompanhar de perto a passeata vespertina: ela saía da Praça da República e ia em direção à Nation. Não é uma grande caminhada: uma avenida reta e plana.

Na manifestação tinha de tudo: pela libertação de países ocupados ilegalmente pela França, pelos imigrantes ilegais, contra Sarkô principalmente. Várias tribos: roqueiros, colombianos, franceses, latinos, pró-Tibet etc. Fomos passando por cada uma delas até a Nation. Parecia um desfile de carnaval brasileiro: as escolas de samba e seus carros alegóricos; mas com teor político-social. Um pouco decepcionante: esperava uma passeata com objetivo único, ou menos pluralista, com um líder acompanhando tudo. Idealismo demais? Ao chegar na Nation, por exemplo, não havia nada que reunisse os vários grupos, nenhum sinal de homogeneidade entre os manifestantes; ao contrário, todos dispersavam-se. Um grupo cantando o hino comunista, outro com música árabe...

Ficarei atenta para ver se há outras manifestações em comemoração ao maio de 68. Enquanto isso, continuo acompanhando a saga de Tereza e Tomas em Praga e Zurique.